Relação entre taxistas e clientes antigos é coisa bonita de se ver

Taxista Paulo e dona Maria indo ao supermercado.

Fechamento da Rádio Táxi foi mais um reflexo dos aplicativos e nos faz questionar como ficam os clientes tradicionais dos táxis

Quando conversei com Paulo Celso Massulo, taxista há mais de 30 anos em Campo Grande, ele estava parado em frente à casa de Maria Boscardin, uma senhora de 91 anos, sua cliente fiel há mais de cinco anos.

Era dia de ir ao mercado, hábito do qual dona Maria não abre mão mesmo no momento em que estamos vivendo, de pandemia de um vírus muito mais perigoso para ela, por conta da idade.

Porém, não é uma corrida normal. Paulo não vai só deixá-la e ir embora, ou ficar esperando no carro, ele a acompanha durante toda a compra, coloca os produtos no carrinho, depois tudo no carro e ajuda a descarregar quando chega em casa.

Converso também com a própria dona Maria, que é só elogio para o motorista de táxi. “Eu sinto muita confiança no trabalho dele, ele me ajuda em tudo. A gente não encontra isso mais hoje em dia”.

Dona Maria está falando de uma relação muito particular que existe entre os taxistas e seus clientes, e que vem ao longo dos últimos anos sendo diretamente afetada pelo advento dos aplicativos de carona paga.

Edinaldo e seu Wilmo indo ao centro da cidade no ano passado.
Edinaldo e seu Wilmo indo ao centro da cidade no ano passado.

Paulo sabe disso. Ele, inclusive, está passando por uma das fases mais delicadas de sua vida, porque é um dos únicos remanescentes da Rádio Táxi Campo Grande, empresa de 30 anos que anunciou o encerramento gradativo das atividades no último dia 10 deste mês.

“Eu digo e repito. Só saio da Rádio (Táxi) quando não tiver mais nada funcionando”.

Paulo atende pela Rádio Táxi desde o início da carreira. Para ele, o que está acontecendo é muito triste, mas admite que é inevitável. “Eu cresci como taxista dentro da Rádio Táxi, fui muito feliz lá, fiz muitas amizades, conheci muita gente, vou ser eternamente grato”.

Mas como ficam esses clientes tradicionais? No caso de Paulo, as coisas não vão mudar muito. “Eu já não recebo muito chamado pelo rádio faz tempo. Agora os clientes são justamente esses mais fieis, que me ligam e eu vou buscar, eles são a minha renda”.

No caso de Edinaldo Robeiro de Lima, também taxista de décadas, que atendeu muitos anos pela Rádio Táxi, vários clientes ainda permanecem, mas outros não resistem às vicissitudes do tempo.

Dona Cleuza Gomes, de 65 anos, foi cliente de Edinaldo durante 15 longos anos. Era ele quem fazia tudo. Tinha semana que as viagens eram diárias. “Chegamos a acertar um valor quinzenal com ele”, lembra Cleuza.

Nos últimos cinco anos, as viagens foram ficando mais escassas, os preços dos aplicativos melhores, a facilidade aumentou, até que a relação “se rompeu”.

Agora ela não tem mais um motorista de táxi “fixo”, mas conseguiu pegar amizade com um motorista de aplicativo e fez dele seu “novo Edinaldo”. “Não é mesma coisa que no táxi, mas foi o jeito que dei, até porque minha visão me atrapalha demais mexer no celular, então eu só ligo”.

Outro cliente de longa data de Edinaldo que, infelizmente, não está pegando mais táxi é seu Wilmo Fernandes, de 65 anos.

Edinaldo acredita que o táxi não vai acabar, mas tem que se modernizar.
Edinaldo acredita que o táxi não vai acabar, mas tem que se modernizar.

Eu lembro que conquistei a fidelidade de seu Wilmo pelo desconto de 30% que dava no preço da corrida. Com o passar do tempo, durante as corridas, fomos pegando uma amizade muito boa.

Mas já faz mais ou menos um seis meses que seu Wilmo não pega mais táxi. São vários motivos: pandemia, doenças, e claro, os aplicativos. “Eu ia sempre para o centro da cidade andar, aí fui ficando mais em casa, até que não pago mais táxi, mas o Edinaldo foi um bom amigo, fala isso pra ele”, diz Wilmo como se não fosse mais ver o taxista.

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